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terça-feira, 16 de agosto de 2011

Sociedade Civil e Sociedade Civil Organizada

Ivan Claudio Marx
Delegado Polícia Federal
1- Introdução
A evolução da humanidade, a criação do Estado e suas diferentes facetas sempre representaram temas de grande relevo para as ciências sociais e humanas. Estes temas, que tanto despertaram o interesse dos teóricos, encontraram sempre como ponto comum a seguinte análise: o ser e o agir da Sociedade civil. Este texto objetiva fazer breves considerações sobre o conceito de Sociedade civil e sua atuação, desde as suas primeiras conotações até o sentido hoje corrente, inclusive passando pela chamada "Sociedade civil organizada".
Sem dúvida, trata-se de uma expressão dotada de algumas peculiaridades interessantes. O emprego deste termo teve uma intrigante evolução, com vários significados sucessivos até o último, que é o mais usado hoje, e que de certa forma representa uma inversão de sentido em relação ao primeiro.
Destaque-se, ainda, que a sua conotação assumiu historicamente um sentido oposicionista. Isto pode ser vislumbrado desde Aristóteles, que lançava mão da dicotomia Sociedade civil-família. Dessa forma, originalmente identificado pelos jusnaturalistas como sinônimo de sociedade política ou Estado em oposição ao Estado de natureza, o conceito acabou perdendo a conotação estatal e assumindo diversas acepções que assim delinearam-se conforme a instituição a ser oposicionada pelos teóricos. Essa evolução culminou com o sentido hoje corrente, amplamente difundido por Marx, de Sociedade civil como algo oposto ao Estado. Da mesma forma, a "Sociedade civil organizada" vem recebendo uma conceituação oposicionista, como pode vislumbrar-se da denominação ONGs [01], dedicada às organizações internacionais da sociedade civil que buscam atuação na esfera política. Como pode-se notar, este termo refere-se àquilo que não seja estatal.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Manifesto dos Iguais

MANIFESTO DOS IGUAIS
 Gracchus Babeuf* (1760-1797)


Povo da França!


Durante perto de vinte séculos viveste na escravidão e foste por isso demasiado infeliz. Mas desde há seis anos que respiras afanosamente na esperança da independência, da felicidade e da igualdade.

A igualdade! - primeira promessa da natureza, primeira necessidade do homem e elemento essencial de toda a legítima associação! Povo da França, tu não ficaste mais favorecido do que as outras nações que vegetam sobre esta mísera terra! Sempre e em qualquer lado, a pobre espécie humana, vítima de antropófagos mais ou menos astutos, foi joguete de todas as ambições, pasto de todas as tiranias. Sempre e em qualquer lado se adulou os homens com belas palavras, mas nunca e em lugar nenhum obtiveram eles aquilo que, através das palavras, lhes prometeram. Desde tempos imemoriais se vem repetindo hipocritamente: os homens são iguais. Mas desde há longo tempo que a desigualdade mais vil e mais monstruosa pesa insolentemente sobre o gênero humano.
Desde a própria existência da sociedade civil, o atributo mais belo do homem vem sendo reconhecido sem oposição, mas nem uma só vez pôde ver-se convertido em realidade: a igualdade nunca foi mais do que uma bela e estéril ficção da lei. E hoje, quando essa igualdade é exigida numa voz mais forte do que nunca, a resposta é esta: "Calai-vos, miseráveis! A igualdade não é realmente mais do que uma quimera; contentai-vos com a igualdade relativa: todos sois iguais em face da lei. Que quereis mais, miseráveis?" Que mais queremos? Legisladores, governantes, proprietários ricos; é agora a vossa vez de nos escutardes.
Todos somos iguais, não é verdade? Este é um princípio incontestável, porque ninguém poderá dizer seriamente, a não ser que esteja atacado de loucura, que é noite quando se vê que ainda é dia. Pois bem, o que pretendemos é viver e morrer iguais já que como iguais nascemos: queremos a igualdade efetiva ou a morte.
Não importa qual o preço, mas havemos de conquistar essa igualdade real. Ai daqueles que se interponham entre ela e nós! Ai de quem se oponha a um juramento formulado desta forma!
A Revolução Francesa não é mais do que a vanguarda de outra revolução maior e mais solene: a última revolução.
O povo passou por cima dos corpos do rei e dos poderosos coligados contra ele; e assim acontecerá com os novos tiranos, com os novos tartufos políticos sentados no lugar dos velhos.

De que mais precisamos além da igualdade de direitos?

Temos apenas necessidade dessa igualdade, da qual resulta a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão: queremos vê-la entre nós, sob o teto das nossas casas. Estamos dispostos a tudo, a fazer tábua-rasa de tudo o mais, apenas para conservar a igualdade. Pereçam, se for necessário, todas as artes, desde que se mantenha de pé a igualdade real!

Legisladores e governantes, com tão pouco engenho como boa fé, proprietários ricos e sem coração, em vão tentais neutralizar a nossa sagrada missão dizendo: "Eles não fazem mais do que reproduzir aquela lei agrária exigida já por diversas vezes no passado".

Caluniadores, calai-vos pela vossa parte e, em silêncio de confissão, escutai as nossas pretensões, ditadas pela natureza e baseadas na justiça.

A lei agrária, ou a divisão da terra, foi aspiração momentânea de alguns soldados sem princípios, de algumas populações incitadas pelo seu instinto mais do que pela razão. Nós temos algo de mais sublime e de mais eqüitativo: o bem comum, ou a comunidade de bens! Nós reclamamos, nós queremos desfrutar coletivamente dos frutos da terra: esses frutos pertencem a todos.

Declaramos que, posteriormente, não poderemos permitir que a imensa maioria dos homens trabalhe e esteja ao serviço e ao mando de uma pequena minoria.

Há muito tempo já que menos de um milhão de indivíduos tem vindo a dispor de quanto pertence a mais de vinte milhões de semelhantes seus, de homens que são em tudo iguais a eles.

Devemos pôr termo a este grande escândalo, que os nossos netos não quererão acreditar possa ter existido! Devemos fazer desaparecer, finalmente, essas odiosas distinções de classes entre ricos e pobres, entre grandes e pequenos, entre senhores e servos, entre governantes e governados.

Que entre os homens não exista mais nenhuma diferença do que aquela que lhes é dada pela idade e pelo sexo. E, porque todos temos as mesmas necessidades e as mesmas faculdades, que exista, portanto, uma única educação para todos e um idêntico regime de alimentação. Toda a gente se sente satisfeita por dispor do sol e do mesmo ar que respira. Porque não há de acontecer o mesmo com a quantidade e a qualidade dos alimentos?

Mas é verdade que já os inimigos da ordem de coisas mais natural que imaginar se possa protestam e clamam contra nós.

Desorganizadores e facciosos, dizem-nos eles, vós só desejais que exista anarquia e massacre.

Povo da França!

Não desejamos perder tempo a responder a esses senhores, mas a ti dizemos-te: a sagrada tarefa em que estamos empenhados não tem outro objetivo que não seja pôr termo às lutas civis e à miséria pública.

Nunca foi concebido e posto em execução um plano mais vasto do que este. De vez em quando, alguns homens de talento, homens inteligentes, falaram em voz baixa e temerosa desse plano. Mas nenhum deles, claro, teve a coragem necessária para dizer toda a verdade.

Chegou a hora das grandes decisões. O mal encontra-se no seu ponto culminante, está a cobrir toda a face da terra. O caos, sob o nome de política, há já demasiados séculos que reina sobre ela. Que tudo volte, pois, a entrar na ordem exata e que cada coisa torne a ocupar o seu posto. Ao grito de igualdade, os elementos da justiça e da felicidade estão a organizar-se. Chegou o momento de fundar a República dos Iguais, este grande refúgio aberto a todos os homens. Chegaram os dias da restituição geral. Famílias sacrificadas, vinde todas sentar-vos à mesa comum posta para todos os vossos filhos.

Povo da França!

A ti estava, pois, reservada a mais esplendorosa de todas as glórias! Sim, tu serás o primeiro que oferecerá ao Mundo este comovedor espetáculo.

Os hábitos inveterados, os antigos preconceitos, farão novamente tudo para impedir a implantação da República dos Iguais. A organização da igualdade efetiva, a única que satisfaz todas as necessidades sem provocar vítimas, sem custar sacrifícios, talvez em princípio não agrade a todos. Os egoístas, os ambiciosos, rugirão de raiva. Os que conquistaram injustamente as suas possessões dirão que está a cometer-se uma injustiça em relação a eles. Os prazeres individuais, os prazeres solitários, as comodidades pessoais, serão motivo de grande pesar para os indivíduos que sempre se caracterizaram pela sua indiferença ante os sofrimentos do próximo. Os amantes do poder absoluto, os miseráveis partidários da autoridade arbitrária, baixarão pesarosos as suas soberbas cabeças perante o nível da igualdade real. A sua visão estreita dificilmente penetrará no próximo futuro da felicidade comum. Mas que podem fazer alguns milhares de descontentes contra uma massa de homens completamente satisfeitos de terem procurado durante tanto tempo uma felicidade que sempre tiveram à mão?

Logo que se verificar esta autêntica revolução, estes últimos, estupefatos, dirão uns aos outros: "Como custava tão pouco conseguir a felicidade comum! Era necessário apenas ter o desejo de alcançá-la. E por que não fizemos isso há mais tempo?" Será preciso repetir sempre uma e outra vez? Sim, sem dúvida, basta que sobre a terra um homem seja mais rico e mais poderoso do que os seus semelhantes, do que os seus iguais, para que o equilíbrio se quebre e o crime e a desgraça invadam o Mundo.

Povo da França!

Quais os sinais que nos permitem reconhecer as qualidades de uma Constituição? Aquela que se apóia integralmente sobre a igualdade é, na realidade, a única que te convém, a única que satisfaz as tuas aspirações.

As cartas aristocráticas dos anos 1791 e 1795, em vez de romper as tuas cadeias, vieram consolidá-las. A de 1793 supôs ser um grande passo no sentido da igualdade real, mas não conseguiu todavia esse objetivo e não apontou diretamente para a igualdade comum, embora consagrasse solenemente o grande princípio dessa igualdade.

Povo da França!

Abre os olhos e o coração para a plenitude da felicidade; reconhece e proclama conosco a República dos Iguais.

*Marx considerava Babeuf o “primeiro comunista ativista” e a Conjuração do Iguais o "primeiro partido comunista".
Rosa de Luxemburgo, Babeuf é "o primeiro precursor dos levantes revolucionários do proletariado".

fonte: http://www.marxists.org/

segunda-feira, 7 de março de 2011

A primeira Tipologia de Governo Herôdotos (484/79-420 a.C.)

Essa tipologia de governo é considerada a primeira e foi escrita por Herôdotos (O Pai da História)  por volta do século V a.C, registrado na sua obra chamada História.
A tipologia é narrada a partir de 3 interlocutores que discutem a melhor forma de governo para a Pérsia, após a morte do rei Cambises (séc. VI a.C. - segundo rei Persa), onde cada um defende uma forma de governos; Otanes - Democracia, Megábizos – Oligarquia e Dario – Monarquia.

Democracia por Otanes

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Voto Rosa Choque

Há um século as mulheres não podiam votar. Para conseguir esse direito, algumas delas arregaçaram as mangas e lutaram cara a cara com os homens - algumas vezes até a morte

por Mariana Sgarioni

De um lado, uma dona de casa educada para cumprir as ordens do marido. Do outro, uma escritora descontente. A separá-las uma da outra, quilômetros de distância. A separá-las de nós, uns 200 anos. A dona de casa era a americana Abigail Adams que, um belo dia, levantou decidida a peitar o marido e exigir direitos iguais aos dele. A escritora era a francesa Olympe de Gouges, autora de uma versão feminina da Declaração dos Direitos do Homem. As duas acabaram se dando mal: a americana foi ridicularizada publicamente pelo marido. E a francesa foi guilhotinada por “ter esquecido as virtudes próprias de seu sexo”.

Essas duas senhoras que viveram no século 18 se tornaram o ponto de partida para uma luta que durou décadas e só acabou há muito pouco tempo: o sufrágio feminino – direito de as mulheres escolherem seus representantes por meio do voto. Esse direito só foi conquistado pelas brasileiras recentemente, em 1932, pelas americanas em 1920 e pelas inglesas em 1928. As suíças votaram pela primeira vez somente em 1971. Se lembrarmos que, até então, na maioria desses países, as mulheres não podiam ser proprietárias de nada, eram proibidas de alugar um imóvel ou assinar um contrato sem autorização do pai ou do marido, não é difícil entender o tamanho da briga que a mulherada estava comprando. Era uma revolução. Não é à toa que o historiador britânico Eric Hobsbawm considera esse um dos momentos mais marcantes do século 20.

Mas o pontapé inicial na porta fechada ao voto feminino se deu bem antes. Considerada a primeira sufragista americana, Abigail Adams acompanhou de perto a Guerra de Independência Americana, no final do século 18. Seu marido, John Adams, foi um dos líderes da revolta contra os ingleses (em 1797, ele se tornaria o segundo presidente dos Estados Unidos). “Espero que no novo Código de Leis vocês se lembrem das mulheres e sejam mais generosos com elas do que seus antepassados. Estamos dispostas a nos rebelar e não obedeceremos nenhuma lei à qual não tivemos voz nem voto”, escreveu ela ao maridão, em 1776, quando ele ajudava a escrever a nova Constituição.

Embora não tenha sido atendida (e sua ameaça não tenha sido cumprida), Abigail plantou a semente do movimento sufragista, que pegaria fogo para valer em meados do século 19, nos Estados Unidos. O ambiente parecia propício a novas idéias e as mulheres pegaram carona no movimento contra a escravidão para dizer que queriam votar. Mas a rejeição masculina era de doer. Filósofos do quilate do inglês Herbert Spencer não admitiam nem a hipótese de a mulher estudar, que diria votar. “Cansar demais o cérebro produz moças de busto chato que jamais poderão gestar uma criança bem desenvolvida”, dizia ele.

Bobagens como esta ainda eram levadas a sério, mesmo entre os abolicionistas. Liberais quando o assunto era escravidão, reacionários quando era a participação política e direitos das mulheres. Isso ficou bem claro a partir do Congresso Mundial Antiescravidão de 1840, que reuniu, nos Estados Unidos, líderes políticos do mundo inteiro (como o príncipe Albert, marido da rainha Vitória, da Inglaterra). Mulheres simplesmente foram proibidas de participar. Entre as barradas no baile estava a escritora e militante abolicionista Elizabeth Cady Staton.

Inconformada, ele começou a reunir outras mulheres descontentes até conseguir organizar, em 1848, a primeira Convenção dos Direitos da Mulher, realizada em Nova York. O encontro atraiu pouco mais de 300 pessoas e hoje é lembrado como marco inicial do movimento sufragista americano. Ali foi escrita a Declaração dos Sentimentos, uma versão feminista da Declaração de Independência dos Estados Unidos, que começa com a frase: “Acreditamos serem estas verdades evidentes: que todos os homens e mulheres foram criados iguais”.

A sociedade recebeu mal o anseio sufragista. “Mulheres foram agredidas nas ruas com frutas podres e insultadas pela imprensa”, diz a jornalista americana Eleanor Cliff, autora de Founding Sisters (“Irmãs Pioneiras”, inédito no Brasil). O livro reproduz trechos de jornais da época que classificaram o encontro em Nova York de “a convenção das galinhas”. Em um artigo, as sufragistas são descritas como “esposas divorciadas, mulheres sem filhos ou solteironas”. Apesar do preconceito, elas foram em frente e, em 1851, reuniram-se para a Convenção de Ohio, onde a defesa do voto feminino foi, de uma vez por todas, alardeada para o mundo. A responsável foi a ex-escrava Sojourner Truth, ao subir na tribuna e dizer as palavras até hoje repetidas em reuniões feministas do mundo todo. “Olhem para mim. Olhem para o meu braço. Eu lavrei a terra, plantei e juntei tudo no celeiro e nenhum homem poderia me liderar! E não sou eu uma mulher?”, disse.

Se as americanas tentavam resolver tudo em encontros políticos e discursos enfáticos, as inglesas foram mais – muito mais – radicais. Lideradas por Emmeline Pankhurst, mulher do advogado Richard Pankhurst (famoso defensor da emancipação da mulher, autor da lei que garantiu às inglesas o direito à propriedade), fundaram, em 1903, o WSPU (sigla em inglês para “União Social e Política das Mulheres”), que recentemente a Scotland Yard, a polícia britânica, classificou como a primeira organização terrorista do país. Não é para menos: sob o lema “Ações, Não Palavras”, as suffragettes, como eram conhecidas as integrantes do WSPU, imprimiram um ritmo violento à campanha pelo voto. Christabel, filha de Emmeline, foi a primeira suffragette a ser presa, em 1905: ela esbofeteou um policial depois de invadir a sala de um parlamentar. Em janeiro de 1912, o partido promoveu um incêndio num posto do correio em Londres. Ninguém saiu ferido, mas três ativistas ficaram seis meses atrás das grades. Em novembro do mesmo ano, durante uma passeata, as representantes do WSPU apedrejaram as vidraças da Câmara dos Comuns, sede do Poder Legislativo inglês. As manifestações incluíram até um ato suicida.

As detenções de sufragistas se tornaram tão comuns que viraram parte da estratégia para divulgar a causa. Em 1912, a própria Emmeline foi detida 12 vezes e, em todas elas, se recusou a comer. A polícia acabou soltando Emmeline, temendo que ela morresse sob a custódia do Estado. O sucesso da estratégia fez com que várias suffragettes se deixassem prender só para fazer greve de fome na cadeia e, dessa forma, atrair todas as atenções para a causa.

A Primeira Guerra Mundial, entre 1914 e 1918, foi decisiva para as pretensões sufragistas. “Alçadas a cargos importantes no mercado de trabalho, em fábricas, bancos e hospitais durante o esforço de guerra, as mulheres não voltariam a posições subalternas depois do conflito”, escreveu Hobsbawm, em Era dos Extremos: o Breve Século 20. Nos Estados Unidos as primeiras eleições com a participação das mulheres ocorreram em 1920 – mais de 50 anos depois de os escravos libertos adquirirem o direito de votar. Na Inglaterra, o Parlamento aprovou o voto feminino em 1928 – ironicamente, poucas semanas depois da morte de Emmeline Pankhurst.

Pátria amada

No Brasil, as coisas andaram um pouco mais devagar. A discussão sobre o voto feminino chegou ao Congresso Nacional pela primeira vez em 1891. Influenciados pelo movimento das americanas e inglesas, alguns deputados propuseram estender o direito de voto às mulheres que possuíssem diploma de curso superior e não estivessem sob a custódia do pai. O resultado foi desastroso: os congressistas consideraram a emenda “anárquica”. Entre seus argumentos: a inferioridade da mulher e o perigo de dissolução da família.

O movimento decisivo para a conquista do voto pelas brasileiras chegou na bagagem da bióloga Bertha Lutz, que voltava de uma temporada de estudos em Paris, em 1919. De lá, Bertha trouxe os ideais sufragistas e não tardou para organizá-los por aqui: aliando-se à militante anarquista Maria Lacerda de Moura, Bertha fundou a Liga pela Emancipação Intelectual da Mulher, que, em 1922, passou a se chamar Federação pelo Progresso Feminino.

Esse foi um período de intenso intercâmbio entre as sufragistas inglesas, americanas e brasileiras. “Intermediadas por Bertha Lutz, elas tinham muita comunicação entre si. As americanas vinham apoiar a luta das brasileiras e vice-versa”, afirma a socióloga Eva Blay, da Universidade de São Paulo. Em 1927, o Rio Grande do Norte incluiu em sua Constituição um artigo permitindo o voto feminino, que fez a mobilização se intensificar ainda mais. Mas esse direito foi estendido para todo o país somente em 1932, com um decreto-lei aprovado pelo então presidente Getúlio Vargas.

Foi o fim de uma guerra de séculos, vencida lentamente, passo a passo. Para chegarem à vitória, as mulheres usaram estratégias que pediam uma astúcia fora do controle das regras masculinas. E é exatamente assim que elas costumam conseguir deles tudo o que querem – em todas as esferas da vida.

As pioneiras do voto feminino
O que a mulher do presidentedos Estados Unidos e uma ex-escrava têm em comum

Abigail Adams (1744-1818)

Proveniente de uma família de prestígio, Abigail casou-se aos 19 anos com John Adams, futuro presidente dos Estados Unidos. Em 1776, enviou uma carta ao marido: “Não nos consideraremos obrigadas a obedecer nenhuma lei na qual não tivemos voz nem voto”. Embora a resposta de Adams tenha sido dura, Abigail nunca deixou de brigar por suas idéias. “Não dêem muito poder a seus maridos”, conclamava. “Lembrem-se de que todos os homens seriam tirânicos se pudessem.”

Sojourner Truth (1797-1833)

Abolicionista e ativista pelos direitos das mulheres, especialmente das ex-escravas. Isabella Baumfree, seu nome de registro, foi escrava até os 30 anos, quando fugiu e juntou-se aos reformistas. Por seu carisma e incrível capacidade de levar a platéia às lágrimas, Sojourner causava comoção cada vez que falava sobre as atrocidades às quais foi submetida durante a escravidão. Em seu lendário discurso intitulado “E não sou uma mulher?”, tornou-se símbolo da luta pela igualdade de direitos nos Estados Unidos.

Elizabeth Cady Staton (1815-1902)

Nascida em Johnston, estado de Nova York, filha de um juiz, Elizabeth representou papel essencial numa das primeiras conquistas femininas dos Estados Unidos, o direito à propriedade. Casada com um jornalista abolicionista, foi ela quem organizou a lendária Convenção pelos Direitos das Mulheres em Nova York, em 1848, e redigiu a Declaração dos Sentimentos, baseada na Declaração de Independência americana, que declarava que homens e mulheres eram criados iguais.

Emmeline Pankhurst (1858-1928)

Fundadora do WSPU (União Social e Política das Mulheres), a principal organização sufragista da Inglaterra, Emmeline dedicou sua vida inteira à causa. Seus métodos agressivos de luta, como incentivar a depredação e o apedrejamento de casas e até da Câmara dos Comuns, por exemplo, fizeram com que ficasse conhecida como uma das primeiras terroristas de seu país. Ela e sua filha, Christabel, foram presas inúmeras vezes. Na maioria delas, Emmeline conseguia ser solta após severas greves de fome.

Bertha Lutz (1894-1976)

Líder na defesa dos direitos das mulheres no Brasil, Bertha nasceu em São Paulo, filha do cientista e médico Adolfo Lutz. Aos 17 anos, foi estudar na Europa e trouxe de lá os ideais sufragistas. Criou, em 1919, a Liga para a Emancipação Intelectual da Mulher. Representou o Brasil no Congresso da Liga das Mulheres Eleitoras nos Estados Unidos. Mesmo depois de estabelecido por lei o voto feminino, Bertha continuou a lutar pelos direitos da mulher até sua morte, aos 82 anos.

Mulher bomba
Sufragista inglesase atira na frente de um cavaloe morre pela causa

Militante do WSPU (Women Social and Political Union), a inglesa Emily Wilding Davison escreveu seu nome na história da luta pelo direito de voto feminino de maneira trágica: jogando-se na frente do cavalo do rei da Inglaterra. Emily escolheu o cenário a dedo: Derby, Inglaterra, dia 4 de junho de 1913. Ali acontecia, como em todos os anos, a mais famosa corrida de cavalos do mundo (até hoje se usa o termo dérbi para designar esse tipo de esporte). O evento reunia a nata da elite da época, incluindo a família real. Em uma cerimônia cheia de pompa, o rei George V apresentou seu animal, Anmer, e o jóquei que iria conduzi-lo, Herbert Jones. A manifestante Emily, velha terrorista conhecida pela polícia – já havia sido presa por incendiar postos dos correios e apedrejar a Câmara dos Comuns, entre outras peripécias – estava na arquibancada, quieta, esperando o momento de entrar em cena.

Dada a largada, Emily pulou as barreiras que separavam a pista do público e atirou-se à frente do cavalo Anmer, que caiu em cima dela, derrubando o jóquei. Alguns espectadores ouviram-na gritar: “Votos para as mulheres!”, pouco antes de se atirar. Outras testemunhas disseram que Emily teria tentado agarrar as rédeas do animal, mas a pancada foi terrível. Com sérios ferimentos, incluindo danos irreversíveis no coração, Emily foi levada às pressas para o Epsom Cottage Hospital, onde morreu quatro dias depois. Apesar de ter se tornado mártir do movimento sufragista, seu gesto teve efeito contrário na prática: “Se uma mulher bem educada foi capaz de uma atitude dessas, imagine o que fariam as outras”, disseram os parlamentares. Na lápide de Emily, restou a inscrição: “Ações, Não Palavras”.

Vovó queria votar
Jornalista fala de sua avó,Eugenia Moreyra, uma das primeiras sufragistas brasileiras

Eugenia Moreyra foi uma mulher corajosa como poucas. Em 1914, aos 16 anos de idade, a primeira jornalista brasileira de que se tem notícia já escrevia artigos ousados dizendo: “A mulher será livre somente no dia em que passar a escolher seus representantes”. Foi com essas palavras que ela acendeu o debate sobre o voto feminino no Brasil. Eugenia trabalhou nos jornais A Rua, A Notícia e O País. Casou-se com um colega de profissão, Álvaro Moreyra, mas nunca parou de trabalhar. Entre suas netas está a repórterda TV Globo Sandra Moreyra, que fala, com exclusividade para Aventuras na História, sobre o orgulho que sente da avó.

"Sufragista, repórter, atriz, comunista, mãe de oito filhos. Essa era minha avó. Morreu cedo. Por isso não a conheci, mas, desde criança, me encantava ouvir meu pai contar a história dela. Eugenia Brandão era o seu nome de solteira. Nasceu em Juiz de Fora, Minas Gerais. Ainda menina, mudou-se para o Rio, com a mãe viúva. Começou a trabalhar cedo, como vendedora numa livraria. Nas horas vagas, estudava francês, lendo dicionários. Um dia, decidiu ser repórter. Entrou na redação do jornal vespertino A Rua e propôs ao editor uma série de pautas. Foi contratada. Ficou conhecida no Rio de Janeiro da época por uma reportagem sobre um asilo de moças, onde as meninas sofriam maus-tratos. Ela se internou no asilo, como uma jovem pobre e abandonada pelo namorado. Lá, conversou com outras moças, apurou as denúncias e uma noite fugiu para contar a história. Tinha só 16 anos. Vovó esperta.

Eugenia não lutou apenas pelo voto feminino, queria a participação das mulheres na vida política do país. Meus avós foram membros do Partido Comunista, nos tempos de sua fundação. Participavam de comícios e manifestações. Foram parar na cadeia por causa disso. Em 1936, quando Luís Carlos Prestes e sua mulher Olga Benário foram para a prisão, meus avós também foram presos. Eugenia ficou presa com Olga, na sala 4 do Departamento de Ordem Política e Social, o DOPS. Fez greve de fome contra a decisão do governo brasileiro de deportar Olga para a Alemanha de Hitler.

Olga era judia e acabou morrendo num campo de concentração. Era forte e doce, rigorosa e cheia de sonhos. Quando meu avô, Álvaro Moreyra, fundou uma companhia de teatro, o Teatro de Brinquedo, lá foi ela para o palco, virou atriz. Vovó foi musa dos modernistas. Declamava poemas de Oswald e Mário de Andrade e Raul Bopp nos teatros do Rio e São Paulo. Foi esposa, mãe, avó e rebelde. Tudo ao mesmo tempo e até o fim da vida, aos 49 anos. Quando ela morreu, em 1948, o poeta Carlos Drummond de Andrade escreveu: ‘A poesia tinha para ela um valor essencial. Foi mulher encantadora e brava. Pagou caro por suas idéias’."

Saiba mais

Livros

Founding Sisters, Eleanor Cliff, Turning Points, 2004 - Jornalista americana conta a história das sufragistas de seu país

A Mulher Brasileira e suas Lutas Sociais e Políticas: 1850 a 1937, June E. Hahner, Brasiliense, 1981 - Ilustrado com fotos, o livro narra a luta pelo direito de voto das mulheres no Brasil

Site

http://www.historylearningsite.co.uk/suffragettes.htm - Página dos professores de história britânica online traz tudo sobre o movimento inglês e suas principais personagens

Fonte: Revista Aventuras na História Outubro 2004

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Candidaturas Estéreis

Agora não tem mais jeito.
Os donos do poder impuseram aos 120 milhões de eleitores do Brasil duas candidaturas estéreis à Presidência da República. Institutos de pesquisa, jornalistas, economistas, analistas políticos, partidos de direita e esquerda, encegueirados pelo consumismo econômico não encontram indicio algum de que esses dois satélites teleguiados girem em torno de outro eixo que não seja o PIB.
Impulsionados pela inércia política, sem vida própria, apáticos, inflexíveis, os dois bólides se mantêm no ar a uma mesma altura e velocidade, prestes a cair sobre nossas cabeças. São duas sementes chochas, sem viço e sem germe. Ambos se equilibram com um pé sobre uma única coluna – o PIB. Pode haver um assunto mais estéril que melhor se adapte à esterilidade dos dois candidatos? Pode haver um tema mais indigesto, sem sabor, capaz de manter longe da mesa os convidados eleitorais?
E as filas de doentes em todos os postos de saúde e hospitais do país não entram no PIB? E os milhões de crianças que saem das escolas sem compreender o que leem ou sem dominar as 4 operações, depois de 8 anos de merenda escolar e de professores malpagos, não entram no PIB? Esses milhares de quilômetros de rodovias e a ausência lamentável de ferrovias não entram no PIB? Essa desertificação da Amazônia, do Cerrado, esses rios poluídos, nascentes arrasadas e cidades inundadas anualmente não entram no PIB?
E quem se preocupa com o Congresso Nacional que receberá os mesmos senadores e deputados aloprados e corrompidos para nos brindar com leis que não pegam? Que importa a opinião desses dois autistas políticos sobre aborto e casamento gay se a decisão será tomada pelos representantes do povo, futuros habitantes da casa legislativa?
Parece evidente que a faculdade humana de pensar foi esquecida e abandonada. A bola substituiu o cérebro. A corrida eleitoral com dois galopantes mancos não atrai apostas nem desperta interesse pelo hipódromo.
Pensar, caro eleitor, é um esporte radical. Se bem praticado, pode mudar o rumo da política, da cidadania e dos governos.
Publicado originalmente no blog: O Observador http://eugeobservador.blogspot.com/

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Darth Vader em Curitiba – Ícone do cinema ajuda em Protesto em frente a ALEP

Ontem em frente a Assembléia Legislativa do Paraná, em um protesto de estudantes e organizações sindicais, um ícone do cinema se fez presente tentando aprender alguma coisa com nossos deputados.

Darth Vader

Tem um emprego aí?

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Triste Madrugada foi Aquela

Realmente poderia virar um filme, me lembrei pelo texto da jornalista do filme JFK.

Triste madrugada foi aquela

Por Daniela Chiaretti, de Copenhague e de São Paulo

22/01/2010

O diálogo abaixo poderia ser o roteiro de um filme hollywoodiano. Não é. É vida real, muito real. Alguns dos homens mais poderosos do mundo são citados nele. Tente descobrir do que se trata:
- Tenho que perguntar por que vocês não investigaram melhor, e não estou falando investigar no sentido da CIA, para descobrir onde aquelas pessoas estavam.
- Nós fizemos isso. Pensamos que eles estavam no aeroporto, foi o que nos disseram.
- Mas aquela era uma área fechada. Por que, então, ninguém da administração sabia onde aquelas pessoas realmente estavam?
- Bem, não é nosso trabalho saber onde está o primeiro-ministro Singh se nos dizem que ele foi para o aeroporto!
- É que geralmente nestas cúpulas há um monte de "sherpas" rastreando o que está havendo e...
- Olha: nos disseram que eles estavam no aeroporto. Falaram para a gente que as delegações haviam se dividido, que não iriam nos encontrar, que Zuma não viria, a menos que os outros dois se juntassem a ele.
Alguma pista? O primeiro-ministro Singh citado é mesmo o líder indiano Manmohan Singh e Zuma é, sim, Jacob Gedleyihlekisa Zuma, o presidente da África do Sul. O lugar fechado é o Bella Center, o centro de convenções na capital da Dinamarca que ficou mundialmente conhecido no fim de 2009 por abrigar a CoP-15, a conferência do clima de Copenhague. Foi lá que, durante 13 dias, estiveram reunidos milhares de pessoas de quase 200 países entre gente de governo, ambientalistas, cientistas, artistas, estudantes e curiosos, para tentar chegar a um acordo climático que salvasse o mundo dos efeitos do aquecimento global. Não deu muito certo, já se sabe. Mas, nos últimos três dias do evento, Copenhague recebeu um número nunca antes visto de chefes de Estado. E foi aí que a bagunça dos primeiros dias virou um caos institucional.
O economista indiano Singh e o sul-africano Zuma são dois dos quatro líderes do Basic, o grupo das economias emergentes formado por Brasil, África do Sul, Índia e China. Eles também foram protagonistas de uma das três reuniões cruciais da CoP-15, a que ficou conhecida como o encontro entre o grupo dos Basic e Obama. A imagem dessa turma estampou jornais, revistas, sites e blogs do mundo todo no fim da cúpula. A foto exibe de um lado da mesa o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e, à sua direita, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama. A careca de Zuma é visível em um dos cantos. Singh, de turbante azul, está do outro lado. Em frente de Obama, o premiê chinês Wen Jiabao. O mais incrível de tudo isso é que essa reunião multilateral ocorreu meio por acaso, no vácuo protocolar deixado pela situação insólita de ter tantos chefes de Estado no mesmo prédio ao mesmo tempo e pela falta de força da presidência da CoP exercida pelo primeiro-ministro da Dinamarca, Lars Rasmussen.
O trecho da conversa acima ocorreu a bordo do Air Force One, o avião que carrega o presidente dos Estados Unidos em suas viagens. O diálogo se deu no ar, na noite daquela sexta-feira, 18 de dezembro, em algum lugar do trajeto entre Copenhague e Washington, depois que Obama, a secretária de Estado Hillary Clinton e outras pessoas da comitiva deixaram a Dinamarca. Quem fala é um graduado funcionário da Casa Branca. Ele tenta explicar aos seus interlocutores um dos enigmas da CoP-15: como aconteceu a reunião entre Obama e o povo do Basic. Ali o destino da Conferência de Copenhague foi selado. Mas o jeito como a reunião multilateral foi realizada parece ter sido obra do acaso, de relógios mal sincronizados ou de uma inacreditável jogada chinesa. A explicação americana alimenta o incrível caos daqueles dias nórdicos. Leia mais um trecho:
- (...) O que eu quero deixar claro é que não entramos e interrompemos um tipo de encontro secreto, ok? O motivo pelo qual aparecemos naquela sala foi os chineses terem adiado a reunião bilateral das 18h15 para as 19 horas. Eram 19 horas e nós, então, fomos para o nosso compromisso. A nossa presença naquela sala era esperada... (...)
- Por Wen.
- Isso. Se os outros... Bem, nós não sabíamos que os outros três estavam ali até a hora em que entramos.
- E vocês contaram isso ao presidente? Alguém ficou bravo?
Muita gente ficou brava, soube-se depois, no que viria a ser aquela triste madrugada. Mas naquele momento, quando Obama estava a caminho do que pensava ser um encontro bilateral entre ele e o premiê Wen, e soube que ali encontraria também os outros três chefes, teria dito apenas "bom".
Obama estava tendo um dia intenso. De manhã, quando o homem mais esperado do mundo desceu do Air Force One no aeroporto de Copenhague, nevava uma barbaridade. Seguiu para o Bella Center e seu discurso em plenário, logo após a fala espontânea e muito aplaudida do presidente Lula, foi frio como a temperatura lá fora. Obama saiu do salão sem ouvir mais ninguém, o que pareceu arrogante e descortês. Foi se encontrar, numa saleta ali atrás, com Wen Jiabao. Segundo o relato da agência de notícias chinesa Xinhua, a conversa entre os dois seguiu na mesma toada do encontro entre Obama e o presidente Hu Jintao em novembro: "Os dois líderes concordaram que os países participantes da conferência deveriam conseguir uma decisão política o mais rápido possível e continuar a cooperação em mudança climática", reportou a Xinhua.
Nas reuniões que teve durante o dia, não encontrou mais o líder chinês, sempre algum subalterno. Uma bela hora, chamou seu staff e disse que não queria desordenar ainda mais a situação e pretendia falar só com o primeiro-ministro Wen. Os americanos foram atrás dos chineses para arranjar o encontro. Em outro momento, Obama também disse que gostaria de se reunir com os outros três chefes do Basic, Lula, Singh e Zuma. Sua equipe foi atrás de marcar uma segunda reunião. E aí começou uma grande trapalhada.
O pessoal de Obama soube que Singh já estava no aeroporto, voltando para a Índia. O Brasil, segundo o relato no Air Force One, disse que iria se os indianos fossem. Zuma, da África do Sul, pensou que todo mundo iria e topou - mas recuou quando soube que não era assim. Nesse meio tempo, os chineses ligaram para seus colegas americanos e pediram um adiamento em seu encontro bilateral, das 18h15 para as 19 horas. Obama soube momentos antes de entrar na sala que a reunião era com todo mundo. Talvez por isso tenha dito ao assessor: "Bom".
A tal reunião estava acontecendo no segundo andar do Bella Center, um lugar meio confuso, atrás de uma galeria com lojas de roupas e móveis, sempre fechadas, e não se entendia bem o que faziam por lá. Havia uns corredores labirínticos com saletas montadas com paredes de divisórias. Não existia nenhuma placa nas portas. Os seguranças dinamarqueses e das Nações Unidas barravam intrusos, jornalistas e delegados. "Também fui barrado e só me liberaram quando olharam meu crachá e eu disse que tinha que ir a uma reunião promovida pelos chineses" conta ao Valor um diplomata do Basic. "Fui atrás de alguns chineses que mal falavam inglês e imaginei que seriam seguranças. Encontrei a sala e entrei."
Era pequena e precária, com uma mesa no centro e cadeiras encostadas nas paredes. Apertada, não tinha espaço livre e várias pessoas estavam em pé. Algumas cadeiras estavam ocupadas por casacões. O presidente Lula tinha de um lado o tradutor e o chanceler Celso Amorim e, do outro, a ministra Dilma Rousseff. Também estava lá o assessor da Presidência para assuntos internacionais Marco Aurélio Garcia. O ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, chegou depois. O tema principal era o MRV e a preocupação da China com o assunto.
A sigla ganhou fama internacional nos últimos dias de Copenhague e foi um dos maiores embates da cúpula. Significa como medir, reportar e verificar as ações que os países em desenvolvimento farão para reduzir suas emissões de gases-estufa. Nos dias que antecederam a chegada dos líderes, o tópico virou cabo de guerra entre americanos e chineses e travava as negociações. Os primeiros exigiram transparência; os outros diziam que essa espécie de auditoria é válida quando as tais ações forem financiadas com dinheiro de fora. Mas, se quem banca é o próprio país, não, obrigada, de jeito nenhum ou isso se chama interferência, argumentavam os chineses.
Os sul-africanos pouco falavam. Os indianos não são tão radicais nesse tema quanto os chineses e escutavam. O presidente Lula e o chanceler Celso Amorim tentavam convencer os chineses a encontrar uma saída para o impasse. Lula dizia que entendia perfeitamente a preocupação chinesa porque tínhamos um trauma na América Latina e no Brasil, especialmente, com a ingerência do Fundo Monetário Internacional nos anos 80. Amorim pediu licença para falar diretamente em inglês e lembrou que alguns técnicos do FMI, nessa época, eram tão famosos quanto os jogadores de futebol, porque davam entrevistas toda hora. Mas que havia de se achar um jeito para que esse item fosse negociado e que, veja bem...
Começaram a escutar um vozerio. Havia uma porta de correr, de vidro, com uma cortina. De repente, a porta se abriu e Obama colocou meio corpo para dentro. "Vocês estão prontos para mim?" perguntou. Havia 20 a 30 pessoas na sala. A maioria não escondeu a surpresa. No relato da Xinhua eram 18h50. Obama sorriu e perguntou se deveria entrar ou esperar fora. Wen se levantou e o convidou a se juntar ao grupo.
Não havia cadeiras vazias. "Não se preocupem, vou me sentar perto do meu amigo Lula", disse Obama. Hillary Clinton sentou-se perto dele. "Várias pessoas me perguntaram depois se ele foi convidado ou se ele se intrometeu lá. Eu não sabia que ele viria", conta um negociador brasileiro. "Não posso jurar, mas custo a acreditar que numa reunião convocada pelos chineses, que prezam tanto essas formalidades, de cultura milenar, alguém possa chegar de repente..."
Até a véspera ninguém sabia com certeza se Obama viria mesmo a Copenhague. Na quarta-feira, o presidente americano havia telefonado a Lula para saber o andar da carruagem. Estava reticente. Alegou que vivia um momento delicado nos EUA porque o Congresso votava o projeto da saúde, a principal bandeira de seu governo até aquele momento. Obama temia se ausentar do país e sofrer uma derrota. Argumentou que estaria bem representado no evento pela secretária de Estado, Hillary Clinton, e por autoridades da área ambiental.
Sem nenhum constrangimento (fato testemunhado por ministros, assessores e por um boquiaberto chanceler Celso Amorim), Lula refutou o colega americano. Disse que, se já estava difícil chegar a um entendimento na CoP-15, mais difícil seria alcançá-lo sem a presença dos líderes. O presidente brasileiro foi incisivo e insistiu que Obama viesse a Copenhague e antecipasse a viagem. O americano disse que não podia chegar antes. Ali começaram a se explicitar as diferenças e a questão MRV veio à tona. Obama teria usado a imagem do FMI para sugerir uma saída. "Olha", sugeriu Lula, "essa não é uma boa comparação."
Lula chegou à capital dinamarquesa na terça à noite. Logo ao chegar se deu conta de que o impasse era grande, a confusão estava instaurada e a coordenação da conferência, complicada. No dia seguinte, recebeu uma romaria de chefes de Estado no seu hotel. Wen Jiabao foi o primeiro e explicou que a ideia de existir um G-2 entre China e Estados Unidos não era bem assim e os chineses buscavam um bom entendimento entre Índia, África do Sul e Brasil. Causou boa impressão. Depois foi o primeiro-ministro britânico Gordon Brown quem veio pedir ajuda. "Brown disse que o quadro estava ruim, que a CoP estava se deteriorando", conta uma fonte do governo brasileiro. O primeiro-ministro dinamarquês Rasmussen também apareceu e citou as grandes dificuldades que enfrentava. "Ficamos mais preocupados porque sentimos uma espécie de desgoverno naquilo tudo, de anomia", afirma um observador da conversa.
Os chefes de Estado foram ocupando espaço num cenário complexo e numa conferência com a liderança contestada. Os dinamarqueses, autores de um texto de acordo que muita gente conhecia, mas vazou de forma atrapalhada, foram pouco habilidosos e provocaram mais desconfiança no processo. Com mais de cem líderes reunidos era difícil manter o protocolo, marcar reuniões, avisar os outros. Cada um tem sua versão do caos e dos encontros misteriosos. Para os chineses, as coisas mal explicadas aconteceram na quinta-feira à noite, no banquete oferecido aos chefes de Estado pela rainha dinamarquesa Margrethe II. Ali, diz a Xinhua, o premiê Wen soube que os EUA promoveriam uma reunião rápida entre vários líderes depois do jantar e a China não tinha sido incluída. A partir daí, o caldo entornou mais. Na manhã seguinte, o último dia da cúpula, Wen propôs o encontro entre os países do Basic.
Depois do jantar da rainha ocorreu a primeira das três reuniões fundamentais que selaram o destino de Copenhague. Ela foi convocada pelo presidente francês Nicolas Sarkozy e pelo presidente Lula. O francês havia dito a Lula que aquilo não era possível e era preciso aproveitar a presença dos principais interlocutores da questão climática e tentar chegar a um acordo. A chanceler alemã Angela Merkel também passara pelo hotel do brasileiro e falou na mesma linha - que o impasse persistia pela falta de condução. Os Estados Unidos, limitados pelo Congresso, não saíam do lugar; a Europa, por causa disso, mantinha suas posições e se retraía; e a China começava a jogar muito na retranca. O universo parecia conspirar contra qualquer êxito em Copenhague.
Foi o banquete da rainha terminar para que cerca de 30 líderes tomassem o rumo do Bella Center. Lula levou Dilma, o embaixador Luiz Alberto Figueiredo Machado, chefe dos negociadores brasileiros, e Minc. Sarkozy avisou que Angela Merkel e Gordon Brown estavam de acordo com o pedido de reunião. "Tudo isso foi muito mal organizado, o chinês não estava avisado, foi uma muvuca", diz a fonte do governo brasileiro.
A reunião começou às 23 horas e terminou às 2h30. Antes das 2 horas, Lula deixou o encontro sem falar muito. Apenas disse: "Estou rindo para não chorar". De novo a coisa foi confusa. A sala era pequena e sem tradução. "Foi se exacerbando a percepção de um processo dominado pelos anglo-saxões ocidentais", diz Elise Buckle, gerente de energia e clima da WWF França. Ali estavam Brown, Angela e Sarkozy. Havia líderes da Suécia, Espanha, Dinamarca e Noruega. Hillary representava os EUA. Estavam também representantes do Japão, da Austrália e da Rússia. Os Basic, todos. México, Colômbia, Indonésia, Coreia do Sul, Etiópia, Argélia, Sudão, Lesoto, Bangladesh, Arábia Saudita, Granada e Maldivas. "Foi uma espécie de G-27 envolvendo os grandes emissores, com representação geográfica e também dos blocos de negociação", conta Elise. Também se tratava de uma tentativa de acelerar os trabalhos antes da chegada de Obama, que, pensava-se, ficaria apenas quatro horas em solo dinamarquês.
No intervalo da reunião de emergência, Carlos Minc falou sobre os tópicos que estavam sendo listados no encontro. Um deles discutia a elevação do corte de emissão de gases-estufa pelos países ricos do nível de 50% para 80% em 2050. O corte global seria de 50%, uma ideia que Brasil e França já haviam apoiado em novembro. Havia algo também sobre finanças: US$ 10 bilhões nos três primeiros anos, US$% 50 bilhões a partir de 2015 e US$ 100 bilhões a partir de 2020. Desses recursos 40% iriam para os países africanos e 20% para as florestas. Mas a China e a Índia bloqueavam a ideia de ter no texto o corte global de emissões de 50% em 2050. A Índia, o mais pobre país dos Basic, usa o conceito de espaço de carbono na atmosfera para dizer que o país ainda tem muita pobreza e justificar seu direito de se desenvolver e emitir.
Na última manhã começou a segunda reunião fundamental da CoP-15. Era basicamente uma continuidade do encontro da noite anterior, mas com um texto sobre a mesa. Inicialmente, a versão era dinamarquesa e muito calcada no que os EUA queriam. Surgiu, também, uma versão franco-brasileira. As sugestões da União Europeia eram muito mais ambiciosas. Fechados o dia todo em uma pequena sala, 26 ou 27 chefes de Estado ficaram escrevendo, de próprio punho, suas anotações do acordo, anotando vírgulas e mudando termos. Obama juntou-se a esse grupo e passou ali várias horas, sentado entre Gordon Brown e o primeiro-ministro etíope, Meles Zenawi. "Ficamos perplexos", diz um diplomata brasileiro. "Nunca se havia visto algo assim, de líderes desse calibre de lápis na mão, botando vírgula, um engajamento muito grande."
Mas mesmo assim, todo mundo sabe, não rolou. Há muitas versões para o fracasso da conferência de Copenhague e para a desordem inacreditável das últimas horas. Nos dias entre o Natal e o Ano Novo, a imprensa britânica publicou artigos que culparam a China pelo naufrágio da cúpula. Ed Miliband, o secretário do clima britânico, disse que não poderiam permitir que as negociações de pontos concretos fossem "sequestradas dessa forma", afirmou ser ultrajante que os procedimentos das Nações Unidas permitam que alguns poucos países bloqueiem um acordo internacional e apontou seu dedo para a China. Também culpou Sudão, além da Bolívia e de outros países da América Latina que rejeitaram o acordo nas últimas horas da plenária. "A Bolívia tem sido muito ativa nas discussões internacionais do clima", registra um diplomata brasileiro. "Esse foi um erro político do acordo. Custava ter chamado a Bolívia a participar também?"
A imprensa dinamarquesa também saltou na jugular dos que votaram contra o acordo no final - o pequeno arquipélago de Tuvalu, Venezuela, Bolívia, El Salvador, Nicarágua e Cuba. Como as decisões das Nações Unidas só podem ser tomadas por consenso, o acordo de Copenhague não se tornou uma decisão da ONU nem da CoP. Acabou às margens da Convenção do Clima, tem a visibilidade de uma nota de rodapé. Sem outro precedente na legislação internacional, deixa as negociações num momento delicado e perigoso. E houve quem criticasse os Estados Unidos, eternos reféns de seu Congresso, que não cederam, ou cederam muito pouco, em suas promessas e propostas. Angela Merkel, a chanceler alemã, foi uma das pessoas que cobraram mais de Barack Obama, na sexta-feira. "Ela falou duro, pressionou os Estados Unidos dizendo que suas propostas de corte de emissão não eram suficientes, falou também com os chineses", conta um negociador europeu. "Merkel repetia 'não podemos sair desta sala sem algo ambicioso'."
Um relato da reunião que circulou pouco antes do Natal, publicado pelo jornal britânico "The Guardian" e escrito por Mark Lynas, que participou do encontro como um dos membros da delegação das Maldivas, põe a culpa da derrocada na conta da China. Foi a China, diz ele, que mandou tirar os 80% de corte pelos países desenvolvidos em 2050. "Por que motivo não podemos sequer mencionar as nossas metas?", teria dito uma furiosa Angela Merkel, os braços erguidos. Os brasileiros também ficaram perplexos. "Agora sabemos o porquê", escreveu Lynas. "Porque a China apostou corretamente que Obama levaria a culpa pela falta de ambição do acordo de Copenhague." A China foi tirando os números que importavam. Definir que o mundo tem que atingir o pico das suas emissões em 2020 e depois cair é essencial para segurar o aumento da temperatura em 2º C. Isso foi retirado e a linguagem ficou vaga.
O presidente das Maldivas, Mohamed Nasheed, apoiado por Gordon Brown, reagiu: "Como você pode pedir que meu país deixe de existir?" O delegado chinês mostrou-se muito contrariado e deixou o número ficar, mas com uma linguagem vaga que torna tudo meio sem sentido, diz Lynas.
"Tem alguns detalhes que ele menciona que são viscerais, aconteceu aquilo mesmo", diz um diplomata brasileiro. Ele atesta que Wen Jiabao realmente não participou da maioria das reuniões, enviando os diplomatas do clima. Sarkozy teria se indignado. "Ele disse ao chinês que não falava com um sujeito que não tivesse a mesma posição hierárquica que a dele. O chinês respondeu que quem está atrás da placa com o nome de seu país é um legítimo representante."
A visão de Lynas, porém, não é unanimidade entre os negociadores. Sobre o pico em 2020, a Índia também não estava de acordo. Outros membros do Basic apoiam. "Isso afeta os países em desenvolvimento. É muito cedo para eles", diz uma fonte do governo brasileiro. "Mas discordo que a culpa seja inteiramente da China", prossegue. "Obama também não defendia com fervor o pico em 2020 nem queria os 80% para os desenvolvidos. Os EUA se comportaram como um país em desenvolvimento e, se o acordo de Copenhague ficou aguado, se deve, em parte, também a eles."
Na sexta-feira, enquanto a reunião do texto seguia, a dos Basic e Obama ocorreu em paralelo. O texto final continuava sendo discutido na reunião grande, enquanto China, Brasil, Índia, África do Sul e EUA discutiam alguns nós da negociação. Ali também ocorreram momentos acalorados. Obama sugeriu um texto para os MRV - "assessment" e "examination". Os chineses e os indianos rejeitaram os termos. A palavra "assessment" sugere algum tipo de fiscalização ou auditoria, o que os chineses não queriam de jeito nenhum. Eles então vieram com sua sugestão: "consultation" e "dialogue". Obama disse que não, nem pensar, que "diálogo" era vago demais. "Diálogo não leva a lugar nenhum. Eu digo uma coisa, você diz outra e fica por isso mesmo", rebateu. Foi aí que os indianos pediram a palavra e disseram que Singh tinha muita experiência em termos aceitos pelo Banco Mundial. E propuseram "international consultations" e "analysis". Obama ficou um pouco reticente, mas topou.
Finalmente, o americano disse que queria tratar de outro assunto, que era um pedido dos europeus. E mencionou o corte de 50% das emissões globais em 2050. Foram os indianos a reagir. Disseram que aquilo era impossível e a conversa não conseguiu prosperar. Na visão dos países em desenvolvimento, a meta global causa algum arrepio. Eles a aceitariam com mais facilidade se o mundo rico estabelecesse uma meta mais ambiciosa, de corte de 40%, em 2020. Quando as economias emergentes tiverem que dividir o bolo também, em 2050, os industrializados já terão feito sua parte e as emissões globais terão caído bastante, na lógica do mundo em desenvolvimento.
A reunião terminou ali. Começou o momento dos apertos de mão quando um diplomata chinês passou a vociferar, em chinês, dirigindo-se a Obama. A tradutora negou-se a traduzir o que ele dizia. Quem viu a cena imaginou que poderiam ser insultos. Obama simplesmente sorriu.
Depois da reunião, o presidente americano, imagina-se, talvez tenha ido encontrar seus pares europeus para contar o que aconteceu. Um diplomata brasileiro tentou chegar à outra reunião, a do texto, para ver como ela continuava. Pegou o evento no fim e não entendeu quando uma negociadora francesa o viu e disse: "Vocês nos traíram!"
Se foi por acaso ou não, o encontro de Obama com os outros quatro emergentes, sem os europeus, indicou uma nova correlação de forças no mundo. O resto da história todo mundo viu: o acordo foi rejeitado em plenário por alguns países e criou um expediente jurídico sem precedentes que deixa os diplomatas sem saber como continuar o processo.
Há quem diga que é preciso esquecer o consenso e questiona a atuação e o método das Nações Unidas. Outros veem nisso um grande risco e apontam: se o processo da ONU é complexo e turbulento, é preciso melhorá-lo e não acabar com o único fórum democrático mundial. As próximas semanas trarão alguma resposta. O dia 31 é a data sugerida pelo acordo para que os países ricos coloquem suas metas de redução de gases-estufa e os outros descrevam suas ações. É a primeira prova de fogo para ver quanto foi para o vinagre em Copenhague.
Fonte: Jornal Valor Econômico – Versão Online