sexta-feira, 6 de julho de 2012

Walkman

Acordou cedo, fez os alongamentos recomendados pelo amigo estudante do terceiro ano de Educação Física – mas não todos – pois achou que deveria impressionar no parque, apanhou sua fita que fora preparada nos últimos 15 dias para a ocasião, vestiu a bermuda e a camiseta compradas na loja de artigos esportivos mais cara da cidade, calçou o tênis de corrida mais moderno que a propaganda pode vender, apanhou as chaves do carro, dirigiu-se a garagem onde estava o carro esporte, meio empoeirado para fazer tipo de aventureiro, abriu a garagem e partiu em direção ao parque escolhido, o mais movimentado onde poderia ver e ser visto.
Fazia pouco mais de vinte dias que havia tomado àquela decisão, para ser mais preciso foi na noite de ano novo, que contagiado por aquela alegria das decisões futuras, surgiu com a novidade que mudaria a sua vida no próximo ano. Refletiu no curto espaço de tempo, entre uma bebida e outra, o quanto havia sido sedentário nesses anos todos.
Passará os últimos trinta e poucos anos de sua vida, tinha quarenta e alguma coisa, sem fazer nenhum tipo de exercício físico, é verdade que por vezes ia a algum parque iniciar uma caminhada, que se encerrava logo que encontrava um boteco ou lanchonete, onde se sentava preguiçosamente de frente para a pista de caminhada, e saboreava uma bela gelada olhando o movimento – meninas para ser mais preciso, explicando melhor meninas com mais de 18 anos – que fazia cansá-lo de tanto olhar de um lado para outro.
Com o passar da idade e influenciado – dizia – pela mídia, cada vez mais se vestia como os jovens, sempre de calça jeans, camiseta e tênis, (às vezes para dar um visual mais sério um blazer por cima desta combinação para dar um toque casual e chique falava) contrastando com a calvice proeminente e os últimos cabelos já grisalhos, charme segundo ele e a piada de sempre: é dos carecas que elas gostam mais.
Era funcionário público, desde que foi aprovado em um concurso no final dos anos 80, como tinha quase 23 anos de serviços prestados a repartição, era considerado (achava-se!) chefe do setor, então se dava o direito de chegar atrasado dia sim e dia também.
Enfim era um homem/moleque de quarenta e tantos anos, que acreditava piamente que não passava de um rapazola recém-saído de casa, coisa que não havia ainda acontecido, segundo, por desejo de sua mãe que de tão apegada jamais cogitou a saída dele de sua casa. Com isso embora fosse de certa forma apresentável (na opinião da sua mãe) em sua juventude, essa dependência materna justificava o fato de não ser casado.
Mas não havia desistido, tanto que durante a semana em mais de um dia, vestia seu uniforme: jeans, camiseta, tênis e blazer, e ia para as baladas mais badaladas da cidade (motivo dos atrasos no trabalho) paquerar as meninas e fazer um social. É importante frizar que em todas as casas noturnas era super esperado, por ser cool e boa praça (nas suas palavras), pelas meninas que o esperavam ansiosamente para dividirem com ele a mesa sempre farta de bebidas caras. Um Bon Vivant como gostava de afirmar.
Seus amigos todos na noite de ano novo receberam com certa galhofa, tipico de momentos como este, aquela decisão, pois todos imaginavam que aquilo não duraria a primeira madrugada de ano novo, e que o motivo real dessa decisão era para tentar impressionar a bela morena (já que tinha ficado impressionado com ela), convidada da anfitriâ, que entre um elogio e outro justificava que a razão de seu belo corpo era resultado da pratica frequente de Cooper.
Decisão tomada e anunciada faltava descobrir onde ela praticava suas corridinhas.
Em um momento de descuido, dela, aproximou-se como quem não quer nada, dizendo aqueles ganteios que todo homem diz, quando quer parecer aquilo que não é, mas descobriu onde ela corria e o principal; era solteira!
Ele era todo sorriso, ela nem aí, quando meio que para escapar dele, bem blase, concordou que qualquer dia poderiam correr juntos.
Acordou cedo, fez os alongamentos recomendados pelo amigo estudante do terceiro ano de Educação Física – mas não todos – pois achou que deveria impressionar no parque, apanhou sua fita que fora preparada nos últimos 15 dias para a ocasião, colocou no walkman, vestiu a bermuda e a camiseta compradas na loja de artigos esportivos mais cara da cidade, calçou o tênis de corrida mais moderno que a propaganda pode vender, apanhou as chaves do carro, dirigiu-se a garagem onde estava o carro esporte, meio empoeirado para fazer tipo de aventureiro, abriu a garagem e partiu em direção ao parque onde a morena por quem estava apaixonado a mais ou menos vinte dias, sem ter trocado mais do que meia duzia de palavras, corria todos os sábados a partir das oito horas da manhã.
Na primeira vez que ela passou por ele no parque, ele justificou que ainda não poderia acompanhá-la, pois seu preparador físico passara uma série de alongamentos e que ainda faltava alongar – com cara de entendido - o adutor da parte posterior da coxa, mas que logo a alcançaria. Na segunda passagem tomou coragem e a acompanhou.
Quem viu a reportagem de TV desde o começo, sobre os perigos que correm os atletas de fim de semana, comentou que a reportagem foi motivada por um homem de quarenta e poucos anos que sofreu um infarto, e que nem mesmo a respiração boca a boca, conseguiu salvá-lo, para desespero da bela corredora que o acompanhava.